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A recente descoberta de extensas galerias subterrâneas em Lauro Müller, no sul de Santa Catarina, transformou a expectativa de um tesouro lendário em um fascinante capítulo da paleontologia brasileira. Durante o alargamento de uma estrada, a moradora Simone Cattaneo Betti e a comunidade depararam-se com estruturas escavadas há mais de 10 mil anos, testemunhos da megafauna do Período Pleistoceno. Conhecidas como paleotocas, estas formações oferecem uma janela única para o modo de vida de animais pré-históricos e sublinham a importância da preservação de sítios paleontológicos.

A Descoberta Inesperada e as Lendas Locais

Simone Cattaneo Betti foi fundamental nesta revelação. Ao avistar a entrada do túnel, sua imaginação foi imediatamente capturada por uma antiga lenda local: a história de uma família que teria sepultado suas riquezas antes de sucumbir a uma peste. A proximidade da casa de Simone com um antigo cemitério reforçava essa crença, alimentando a esperança de um grande achado. "Quando a gente viu, pensou: agora é só seguir o caminho que o tesouro está ali", relatou Simone, expressando a curiosidade que dominou a comunidade.

Paleotocas: O Legado Subterrâneo da Megafauna

A chegada de especialistas transformou a expectativa em descoberta científica. Os túneis foram rapidamente identificados como paleotocas, estruturas subterrâneas criadas por animais gigantes que habitaram a Terra durante o Período Pleistoceno, também conhecido como Idade do Gelo. Essas cavidades serviam como abrigos vitais para a megafauna, oferecendo proteção contra predadores, variações climáticas e locais para reprodução. Sua preservação por milênios, após a extinção de seus criadores, é um testemunho da robustez do subsolo catarinense.

Arquitetos Pré-históricos: Tatus e Preguiças Gigantes

Os principais arquitetos dessas escavações foram espécies extintas de tatus e preguiças gigantes. O doutorando em geografia Arthur Filipe Bechtel explica que tatus-gigantes podiam pesar até 500 quilos, e preguiças-gigantes chegavam a colossais seis toneladas. Com garras poderosas, eles eram capazes de perfurar solos compactos e areníticos, criando redes de túneis que se estendiam por dezenas de metros. A descoberta em Lauro Müller é particularmente interessante por revelar que esses animais também escavavam em materiais geológicos diversos dos habituais, ampliando o entendimento sobre sua adaptabilidade e distribuição geográfica.

Métodos de Identificação e Novas Perspectivas Científicas

A confirmação da natureza paleotoca dos túneis baseia-se em uma série de fatores geológicos e morfológicos. O geólogo Gustavo Simão detalhou que a observação do tipo de relevo da região, a composição do solo, predominantemente arenítico, e o formato característico do túnel são cruciais para a identificação. Além disso, as paredes dessas cavidades frequentemente exibem marcas de garras — as "arranhaduras" — que são impressões diretas da atividade dos animais escavadores. "O surgimento dessa estrutura mostra que esses animais também habitavam, escavavam, materiais diferentes daquelas paleontocas já conhecidas e que geograficamente ocupavam outros espaços", ressaltou Simão. Cada nova evidência e cada nova paleotoca contribuem significativamente para a reconstrução do modo de vida e dos habitats desses animais extintos. A área de Lauro Müller foi prontamente isolada e está agora sob proteção de lei federal, garantindo que futuros estudos possam aprofundar o conhecimento sobre a estrutura e seus segredos.

O Geoparque Caminhos dos Cânions do Sul: Um Santuário Paleontológico

A região onde a paleotoca foi descoberta está inserida no Geoparque Caminhos dos Cânions do Sul, uma área de extraordinária importância geológica e biológica. Atualmente, o geoparque contabiliza o registro de aproximadamente 30 paleotocas, espalhadas por municípios como Morro Grande, Jacinto Machado e Timbé do Sul. Esta concentração de estruturas pré-históricas eleva o status da região a um verdadeiro santuário paleontológico. Gislael Floriano, diretor executivo do geoparque, enfatiza que a descoberta em Lauro Müller não apenas reforça a importância histórica e científica do território, mas também ilumina a complexa interação entre a megafauna e os primeiros habitantes humanos. Ele destaca que, em alguns casos, essas grandiosas estruturas foram reutilizadas por povos indígenas ao longo da história, servindo como abrigos e locais de rituais, adicionando uma camada de significado cultural às já impressionantes formações geológicas. A gestão do Geoparque trabalha para preservar esses locais, promover a pesquisa e educar o público sobre a herança natural e cultural da região, fomentando também o geoturismo sustentável.

A Megafauna do Pleistoceno no Contexto Sul-Americano

O Período Pleistoceno, que se estendeu de aproximadamente 2,6 milhões a 11,7 mil anos atrás, foi marcado por grandes oscilações climáticas e a presença de uma impressionante diversidade de mamíferos de grande porte. Na América do Sul, a megafauna incluía não apenas os tatus e preguiças gigantes, mas também mastodontes, gliptodontes e tigres-dentes-de-sabre. As paleotocas, embora predominantemente associadas aos tatus e preguiças, fornecem evidências cruciais sobre o ambiente e o comportamento desses animais. O sul do Brasil, com suas características geológicas particulares, revelou-se um hotspot para a preservação desses registros. A extinção dessa megafauna, ocorrida no final do Pleistoceno, é um tema de intenso debate científico, com hipóteses que variam desde mudanças climáticas drásticas até a crescente pressão da caça por parte dos primeiros seres humanos que colonizaram o continente. A persistência das paleotocas nos dias atuais serve como um poderoso lembrete de um mundo perdido.

Entre a Ciência e a Percepção Humana

Enquanto a ciência avança na compreensão da antiguidade e da autoria das paleotocas, a perspectiva local adiciona uma camada de fascinante complexidade. A visão de Simone Cattaneo Betti, de que os túneis poderiam ter sido reutilizados por seres humanos ao longo do tempo, não é desprovida de lógica. Arqueólogos já documentaram a ocupação humana de cavernas e abrigos naturais por milênios. A ideia de que essas estruturas gigantes, inicialmente escavadas por criaturas pré-históricas, pudessem ter oferecido refúgio ou servido a outros propósitos para povos subsequentes, cria uma ponte intrigante entre eras geológicas e períodos históricos. "Pode ter sido feito pelos tatus gigantes, sim… mas depois outras pessoas podem ter usado. Vai saber, né? A esperança continua", expressa Simone, com um sorriso, encapsulando a curiosidade inata do ser humano e a capacidade de imaginar a intersecção de diferentes temporalidades em um mesmo local.

A descoberta desta paleotoca em Lauro Müller transcende um achado arqueológico; é um convite à reflexão sobre as profundezas da história de Santa Catarina e do nosso planeta. Ela nos lembra da vastidão do tempo geológico e da megafauna que um dia pisou e escavou este solo, ao mesmo tempo em que destaca a curiosidade humana e a perpetuação de lendas que conectam gerações. O trabalho contínuo de pesquisadores e do Geoparque Caminhos dos Cânions do Sul é fundamental para desvendar os mistérios que estas estruturas ainda guardam e para assegurar que este patrimônio seja estudado e protegido. Para explorar mais histórias fascinantes sobre a riqueza natural, histórica e cultural de Santa Catarina, continue navegando pelo São José 100 Limites e mantenha-se atualizado com as últimas descobertas que moldam nosso entendimento do mundo.

Fonte: https://g1.globo.com

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