Com um olhar inovador e profundamente inclusivo, o Ciclo de Palestras 2026 de São José teve sua primeira edição marcada por um debate essencial: a neurodivergência na terceira idade. O evento de abertura, realizado nesta sexta-feira (10) no Centro de Atenção à Terceira Idade (Cati), reuniu mais de 60 idosos moradores do município, além de profissionais da assistência social, para uma imersão no tema “Uma Vida Inteira Pensando Diferente: Neurodivergência na Terceira Idade”. A iniciativa reflete o compromisso de São José em promover o bem-estar e a compreensão das diversas realidades que compõem o processo de envelhecimento, desmistificando conceitos e valorizando a individualidade em todas as fases da vida.
Desvendando a neurodivergência na terceira idade
A palestra, conduzida pela mestre e doutoranda em Educação, Mariele Finatto, trouxe à luz um tema muitas vezes negligenciado: a presença de características neurodivergentes em pessoas idosas. Finatto abordou como condições como o Transtorno do Espectro Autista (TEA), o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e as altas habilidades podem acompanhar um indivíduo ao longo de toda a vida, frequentemente sem um diagnóstico formal. Isso ocorre, em parte, pela falta de conhecimento sobre o assunto em décadas passadas, pela ausência de critérios diagnósticos adequados para adultos e idosos e pela capacidade de muitos indivíduos neurodivergentes de desenvolverem estratégias de 'mascaramento' para se adaptar às expectativas sociais, tornando a identificação mais complexa. Compreender que a neurodivergência não é uma doença, mas uma forma distinta de funcionamento cerebral e de percepção do mundo, é crucial para a promoção da empatia e da inclusão.
Mariele Finatto enfatizou que “Neurodivergência é um cérebro que funciona de forma diferente do padrão mais comum. Não é doença, nem defeito, mas uma forma diferente de perceber o mundo. Pensar diferente também faz parte da diversidade”. Essa perspectiva ressalta a importância de reconhecer e valorizar a singularidade de cada pessoa, especialmente na terceira idade, onde as experiências de vida podem ter sido marcadas por desafios não identificados. A falta de um diagnóstico pode gerar anos de autojulgamento, dificuldades de relacionamento e até o desenvolvimento de comorbidades psicológicas, reforçando a urgência de abordagens mais informadas e sensíveis no cuidado com os idosos.
O impacto e o suporte na prática profissional
A relevância do debate se estendeu também aos profissionais da Secretaria de Assistência Social do município, que marcaram presença e se manifestaram sobre a importância do tema. A assistente social Cleide Libardi Tiengo Pontes, do Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas) sede, localizado em Campinas, destacou a conexão direta do conteúdo com a realidade de seu trabalho. “A atividade dialoga diretamente com a realidade do trabalho desenvolvido com pessoas idosas e com deficiência. São temas muito relevantes e vão contribuir bastante para a nossa prática. É um trabalho que exige equilíbrio emocional, e ouvir esses relatos nos toca profundamente, porque fazem parte do nosso dia a dia com as famílias e cuidadores”, afirmou Cleide, que esteve acompanhada por mais duas assistentes sociais.
A perspectiva dos assistentes sociais é fundamental, pois eles estão na linha de frente do atendimento a famílias que enfrentam os desafios do envelhecimento e da deficiência. Aprofundar o conhecimento sobre neurodivergência e outras condições que afetam a terceira idade permite que esses profissionais ofereçam um suporte mais qualificado e humanizado. Isso inclui desde a orientação para a busca de diagnósticos e tratamentos adequados, até a construção de redes de apoio eficazes e a promoção da autonomia e da qualidade de vida dos idosos e seus cuidadores. A formação continuada e o acesso a informações atualizadas são essenciais para que a prática social seja verdadeiramente transformadora e inclusiva.
Alzheimer: um olhar sensível sobre o cuidado familiar
Complementando a abordagem sobre o envelhecimento, o Ciclo de Palestras 2026 também foi palco do lançamento do livro “O que o Alzheimer trouxe para a minha vida”, da psicanalista clínica Michele Maestri Pontes Nunes. A obra, um relato pessoal e sensível sobre a vivência da autora com a mãe diagnosticada com Alzheimer, ofereceu uma perspectiva íntima sobre os impactos da doença que vai muito além do indivíduo afetado. Michele salientou um ponto crucial: “Não adoece só a pessoa, adoece a casa toda. Por isso, é fundamental que o cuidador também tenha apoio e seja cuidado”. Essa afirmação ressoa profundamente com a realidade de milhares de famílias.
O relato de Michele Maestri Pontes Nunes abrange desde os primeiros sinais insidiosos da doença até os desafios exaustivos do cuidado diário. A obra aborda temas complexos como a negação inicial do diagnóstico, a difícil aceitação da progressão da doença, a sobrecarga emocional e física enfrentada pelos cuidadores, e a importância vital de uma rede de apoio sólida. A plateia foi visivelmente emocionada pelas palavras da psicanalista, que validaram as experiências de muitos presentes. Entre eles, Lígia Flora Maia dos Santos, de 67 anos, encontrou identificação imediata com a narrativa. “Enquanto ela falava, eu me vi em cada situação. Eu cuidei sozinha de uma tia com Alzheimer por dois anos. É muito difícil, a gente se cansa mentalmente, a vida muda completamente. Eu vou comprar o livro porque é exatamente a história que eu tenho para contar também”, relatou Lígia, demonstrando como a arte e o compartilhamento de experiências são poderosos instrumentos de acolhimento e validação.
Sinergias no envelhecimento ativo: neurodivergência e saúde cognitiva
Embora a neurodivergência e o Alzheimer sejam condições distintas, o ciclo de palestras estabeleceu uma sinergia importante entre os temas. Ambas as abordagens convergiram para a necessidade de um olhar mais atento, empático e informativo sobre as diferentes formas de envelhecer. Seja lidando com um cérebro que sempre operou fora do padrão normativo ou com um que está enfrentando a progressiva degeneração cognitiva, o ponto comum é a busca por dignidade, qualidade de vida e suporte adequado. A discussão sobre neurodivergência pode, inclusive, abrir portas para uma melhor compreensão de como características individuais preexistentes podem influenciar a forma como os desafios do envelhecimento ou as doenças neurodegenerativas se manifestam ou são percebidas, tanto pelos indivíduos quanto por seus cuidadores e profissionais de saúde.
Programa Longevidade Ativa: um compromisso contínuo com São José
A superintendente da Fundesj, Maria Helena Krüger, reforçou a proposta abrangente do primeiro Ciclo de Palestras 2026. Segundo Krüger, o objetivo central é ir além da mera informação, buscando “ampliar a compreensão sobre essas condições e reforçar a importância do respeito, da empatia e da inclusão em todas as fases da vida”. A iniciativa integra o Programa Longevidade Ativa, uma plataforma mais ampla dedicada a promover um envelhecimento saudável e pleno para os cidadãos de São José. Este programa reflete o comprometimento do município em construir uma sociedade mais acolhedora e preparada para os desafios e as belezas da longevidade.
O Ciclo de Palestras se consolidará como um espaço permanente de diálogo e aprendizado, com encontros quinzenais que ocorrerão sempre às sextas-feiras no Cati. A programação contínua abordará uma vasta gama de temas cruciais relacionados ao envelhecimento, incluindo saúde mental na terceira idade, estratégias para um envelhecimento saudável, direitos do idoso, prevenção de doenças e promoção da qualidade de vida. Esses encontros não são apenas palestras, mas sim fóruns para conversa, acolhimento e troca de experiências, elementos essenciais para que os idosos de São José se sintam valorizados, compreendidos e ativos na comunidade, demonstrando o pioneirismo do município em pautar discussões tão relevantes.
O debate sobre neurodivergência e o lançamento do livro sobre Alzheimer marcam um início promissor para o Ciclo de Palestras 2026 em São José, evidenciando a busca por uma comunidade mais informada e solidária. Convidamos você a continuar navegando pelo São José 100 Limites para não perder as próximas edições deste importante ciclo, além de outras notícias e conteúdos aprofundados que fortalecem nossa comunidade e promovem o bem-estar de todos. Explore, informe-se e participe ativamente da construção de um São José sem limites para o conhecimento e a inclusão!
Fonte: https://saojose.sc.gov.br