Há mais de duas semanas, um mistério paira sobre a Terra Indígena Cambirela, em Palhoça, na Grande Florianópolis, e mobiliza a comunidade indígena e as autoridades locais. A cacica Etelvina Fontora, de 71 anos, respeitada líder do povo Guarani Mbya, desapareceu sem deixar vestígios desde o dia 5 de abril. Sua ausência, que já se estende por um período crítico, gera profunda angústia entre familiares e membros da aldeia, que clamam por respostas e intensificação das buscas. O caso, que foi comunicado à polícia e à Fundação Nacional dos Povos Indígenas (FUNAI), expõe a vulnerabilidade de comunidades tradicionais e a urgência de uma investigação aprofundada para esclarecer o paradeiro de uma figura tão importante para a cultura e a coesão social de seu povo.
A figura de Etelvina Fontora: liderança e resiliência
Etelvina Fontora é muito mais do que uma senhora de 71 anos; ela é a única cacica da Terra Indígena Cambirela, um pilar fundamental para a organização social, cultural e espiritual de sua comunidade. Natural de Palhoça, Dona Etelvina é membro do povo Guarani Mbya, uma das etnias indígenas mais presentes no Sul do Brasil, conhecida por sua rica cultura, língua (o guarani, um idioma tupi-guarani) e uma profunda conexão com a natureza e seus territórios tradicionais. Sua vida, embora descrita pela filha Indianara Fontora como de uma “rotina simples de dona de casa”, sempre foi marcada pela liderança natural e pelo cuidado, não apenas com o filho que tem esquizofrenia e com quem dividia a casa, mas com todos os membros da aldeia.
A função de cacica transcende o mero título administrativo. Na cultura Guarani, a liderança é exercida com sabedoria, experiência e um profundo respeito às tradições ancestrais. Cacicas como Etelvina são responsáveis por mediar conflitos, orientar a comunidade em questões de subsistência, saúde e educação, além de serem guardiãs da língua, dos rituais e dos conhecimentos passados de geração em geração. A ausência de uma figura com essa relevância deixa um vazio imenso, desestruturando o cotidiano da aldeia e causando um impacto psicológico e social difícil de mensurar.
Cronologia do desaparecimento e a busca inicial
O último contato com a cacica Etelvina foi registrado em 5 de abril. Diante da ausência prolongada, a família e a comunidade iniciaram suas próprias buscas. A filha Indianara Fontora relata ter procurado incansavelmente pela mata densa e nas proximidades da cachoeira que cercam a Terra Indígena Cambirela, mas sem sucesso. A esperança de encontrá-la se baseia na observação de que documentos e algumas roupas da cacica também desapareceram, o que sugere a possibilidade de que ela possa ter saído por conta própria. Contudo, essa hipótese não diminui a preocupação e a urgência em localizá-la, especialmente considerando sua idade avançada e a vulnerabilidade inerente à situação.
O Boletim de Ocorrência (BO) formalizando o desaparecimento foi registrado pela família apenas em 8 de abril, três dias após o ocorrido. Este lapso temporal, por vezes comum em casos de pessoas que podem ter se ausentado voluntariamente, pode ser crucial para a investigação, dificultando a coleta de informações e o rastreamento dos primeiros passos da cacica Etelvina após sua saída da aldeia. A divulgação de sua imagem nas redes sociais do programa SOS Desaparecidos da Polícia Militar e no site da Polícia Civil de Santa Catarina demonstra o esforço em alertar a população e mobilizar possíveis testemunhas.
A cobrança por respostas: Funai, polícia e o grito dos povos indígenas
A comunicação com as autoridades foi feita prontamente pela comunidade indígena. Segundo Kennedy Karai, coordenador da comissão de caciques de Santa Catarina, a FUNAI e a força policial foram acionadas logo após o registro do BO. No entanto, o que tem gerado maior indignação e preocupação é a alegada falta de retorno por parte dessas instituições. “A gente acionou a FUNAI, fizemos os boletins de ocorrência e tudo mais, mas após isso, tanto a FUNAI como a força policial ainda não deram nenhum retorno de como que está a investigação, como que está a procura”, afirmou Karai, ressaltando a frustração da comunidade diante da aparente inércia.
A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), uma das mais importantes entidades representativas dos direitos indígenas no país, emitiu uma nota pública no dia 20 de abril, manifestando “repúdio diante da falta de respostas e da ausência de informações concretas sobre o desaparecimento”. A Apib enfatizou a inaceitabilidade de que, após semanas, não haja esclarecimentos sobre o paradeiro de Dona Etelvina. Esse posicionamento nacional amplia a visibilidade do caso e pressiona as autoridades a intensificarem os esforços e a comunicarem de forma transparente o andamento das investigações. A efetividade da ação policial em casos de desaparecimento, especialmente envolvendo populações vulneráveis como idosos e indígenas, é crucial para a confiança das comunidades nas instituições estatais.
O contexto da grande Florianópolis e os desafios indígenas
A Terra Indígena Cambirela, localizada em Palhoça, faz parte da Grande Florianópolis, uma região que, apesar de seu desenvolvimento urbano, abriga diversas comunidades indígenas, especialmente do povo Guarani. A proximidade com centros urbanos traz consigo uma série de desafios, como a pressão sobre o território, o acesso desigual a serviços públicos e a necessidade de diálogo constante entre diferentes culturas. O desaparecimento de uma líder como Etelvina Fontora nesse cenário complexo ressalta a urgência de políticas públicas mais eficazes e de uma atenção redobrada por parte das autoridades para garantir a segurança e os direitos dos povos indígenas.
A questão do desaparecimento de pessoas é um problema social grave no Brasil, e quando envolve indivíduos de comunidades indígenas, outras camadas de complexidade são adicionadas, incluindo barreiras linguísticas, culturais e, por vezes, a falta de familiaridade das instituições com os modos de vida e as particularidades dessas populações. É imperativo que as forças de segurança e órgãos como a FUNAI atuem de forma coordenada, respeitando as especificidades culturais e garantindo que todas as pistas sejam investigadas com a devida diligência e sensibilidade.
Apelos à solidariedade e a necessidade de engajamento cívico
A comunidade Guarani Mbya da Terra Indígena Cambirela, juntamente com entidades de defesa dos direitos indígenas em todo o Brasil, mantém a esperança e a mobilização para encontrar Etelvina Fontora. O apelo por informações é direcionado a toda a população: qualquer detalhe, por menor que pareça, pode ser crucial para desvendar o mistério. As autoridades continuam a ser pressionadas para que o caso receba a prioridade e os recursos necessários, garantindo que a investigação avance e traga clareza sobre o que ocorreu com a cacica.
Este desaparecimento não é apenas um caso isolado, mas um lembrete pungente da fragilidade e da importância de proteger os líderes e as culturas indígenas. É um chamado à solidariedade e ao engajamento cívico para que a voz da comunidade Guarani seja ouvida e que a justiça e a verdade prevaleçam. A família, os amigos e todo o povo Guarani de Santa Catarina aguardam ansiosamente por notícias, mantendo viva a chama da esperança em meio à dor da incerteza.
Acompanhar de perto casos como o da cacica Etelvina Fontora é fundamental para entender os desafios enfrentados pelas comunidades indígenas e para fomentar a discussão sobre direitos humanos e proteção cultural. Mantenha-se informado sobre este e outros importantes acontecimentos na Grande Florianópolis e em Santa Catarina, navegando pelo São José 100 Limites, onde você encontra jornalismo aprofundado e as últimas atualizações que impactam a sua região. Sua leitura e engajamento fazem a diferença para darmos voz a quem precisa ser ouvido.
Fonte: https://g1.globo.com