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O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) realizou uma operação de grande relevância ambiental em Xanxerê, no Oeste de Santa Catarina, resultando na desativação do último criadouro de macacos-prego do Brasil. O estabelecimento foi fechado devido a flagrantes e graves situações de maus-tratos contra os animais. A ação, concluída nesta semana e divulgada na última sexta-feira (10), revelou um cenário perturbador: animais desnutridos, estressados e privados de condições mínimas de bem-estar. A declaração de um fiscal de que "o manejo desses animais era feito na base do terror" sintetiza a urgência dessa intervenção, marcando um momento crucial na defesa dos direitos dos animais silvestres em cativeiro no país.

Uma Década de Exploração Sob Disfarce Judicial

Por mais de uma década, de 2013 a 2024, o criadouro operou amparado por uma liminar judicial, permitindo a criação e comercialização de primatas nativos, como macacos-prego e saguis. Essa permissão legal transformou seres vivos em meras mercadorias, focando puramente no lucro. Documentos do próprio estabelecimento indicam a venda de 240 primatas nesse período, incluindo 86 macacos-prego e 154 saguis. A fiscalização do Ibama, contudo, revelou as condições desoladoras por trás desse comércio. A cassação da liminar em 2024 finalmente abriu caminho para a atuação decisiva das autoridades, que já haviam tentado intervir anteriormente.

O Cenário de Maus-Tratos e Sofrimento Animal

A equipe de fiscalização do Ibama descreveu condições sistematicamente inadequadas para a manutenção de primatas, com sérios prejuízos à saúde física e mental dos animais. Entre as irregularidades constatadas, destacam-se gaiolas de tamanhos diminutos, que impediam movimentos essenciais para macacos-prego, como a escalada e a exploração de ambiente, características intrínsecas à sua natureza arborícola. Além disso, os animais sofriam de desnutrição severa, visivelmente estressados e privados de acesso adequado à luz solar, um elemento vital para a síntese de vitamina D e o bem-estar geral. A prática cruel de separação precoce de filhotes de suas mães também foi identificada, comprometendo o desenvolvimento social e emocional dos jovens primatas, que dependem extensivamente dos cuidados maternos nos primeiros anos de vida.

O Terror Psicológico e a Perda de Comportamentos Naturais

O impacto psicológico sobre os animais era devastador. Uma das fiscais envolvidas na apreensão relatou que os macacos apresentavam "alto grau de comportamento típico de estresse, de cativeiro inadequado". Ela detalhou que o "manejo desses animais era feito na base do terror, com jatos d’água de alta pressão", o que gerava um medo exacerbado e uma aversão profunda a pessoas em todos os animais. Essa forma de tratamento, aliada ao confinamento e à privação de estímulos naturais, impedia que os macacos desenvolvessem comportamentos essenciais para a espécie, como a formação de hierarquias de grupo e a interação social complexa. O estresse crônico e prolongado, portanto, havia degradado não apenas a saúde individual, mas a própria capacidade dos primatas de viverem em sociedade, um aspecto crucial para sua sobrevivência e bem-estar.

Superando Obstáculos: Ações Judiciais e Resgates Anteriores

A operação de desativação não foi um processo simples, sendo marcada por significativos obstáculos. O proprietário do criadouro sistematicamente dificultou o acesso das equipes de fiscalização e a remoção dos animais, exigindo intervenções judiciais. No ano anterior à desativação final, 167 animais — compreendendo 126 aves e 41 primatas — já haviam sido resgatados do local e encaminhados para Centros de Triagem de Animais Silvestres (Cetas) em Brasília, Lorena (SP) e Porto Alegre. A retirada dos 26 macacos-prego restantes, no entanto, demandou a expedição de um mandado judicial específico para ingresso na propriedade, evidenciando a persistência do proprietário em manter a atividade irregular e a determinação do Ibama em fazer cumprir a lei.

Rumo à Reabilitação e à Vida Digna

Com o sucesso da operação de resgate, os 26 macacos-prego foram imediatamente encaminhados para uma instituição especializada em reabilitação de animais silvestres. Neste novo lar, eles recebem a chance de recuperação em um processo intensivo e multidisciplinar. Têm acesso a espaços amplos e enriquecidos com terra, vegetação nativa e estruturas projetadas para escalada – elementos fundamentais que mimetizam seu habitat natural e incentivam a retomada de comportamentos esperados da espécie. Além da liberdade de movimento, os animais recebem uma dieta balanceada, nutrição adequada e exercícios monitorados, essenciais para restabelecer a saúde física e mental. O objetivo primordial é que possam, finalmente, "compor bandos e viver socialmente", recuperando a complexa dinâmica social que lhes foi negada pelo prolongado cativeiro.

Os Perigos da Domesticação de Primatas Silvestres

O encerramento deste criadouro reforça a importância da conscientização pública sobre a inadequação da domesticação de primatas silvestres. Órgãos ambientais e especialistas desaconselham veementemente a criação de macacos como animais de estimação. Essas espécies possuem necessidades comportamentais, nutricionais e sociais extremamente complexas que não podem ser supridas em um ambiente doméstico. A tentativa de mantê-los como pets resulta invariavelmente em ambientes inadequados, que comprometem severamente seus comportamentos naturais e levam, consequentemente, a maus-tratos. Adicionalmente, há riscos sanitários significativos, como a transmissão de doenças zoonóticas, que podem afetar tanto os animais quanto os humanos. A legislação brasileira é clara ao proibir a posse de animais silvestres sem autorização, sublinhando a necessidade de respeitar a fauna em seus habitats naturais ou em cativeiros rigorosamente controlados para fins de conservação e reabilitação.

A Força da Colaboração na Proteção Ambiental

A complexa operação em Xanxerê destaca a eficácia e a necessidade da colaboração interinstitucional. A ação do Ibama contou com o apoio logístico fundamental da Polícia Rodoviária Federal (PRF), crucial para o transporte seguro dos animais. Adicionalmente, o Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina (IMA-SC), a Polícia Militar Ambiental e outras instituições parceiras desempenharam papéis essenciais, seja no planejamento, na execução ou no suporte técnico. Esse esforço conjunto não apenas garantiu o sucesso do resgate, mas também fortaleceu a capacidade do Brasil no combate a crimes ambientais e na proteção de sua vasta biodiversidade. O fechamento do último criadouro de macacos-prego autorizado, mesmo que sob liminar, envia uma mensagem inequívoca: a exploração comercial de animais silvestres, especialmente sob condições de maus-tratos, não será tolerada. É um passo significativo para consolidar um futuro onde o respeito à fauna nativa e a educação ambiental sejam prioridades.

Este caso em Xanxerê serve como um poderoso lembrete da nossa responsabilidade coletiva com a vida selvagem e o meio ambiente. Para aprofundar seu conhecimento sobre as questões ambientais que impactam nossa região, as ações de conservação e as notícias que moldam o futuro de Santa Catarina e do Brasil, continue navegando no São José 100 Limites. Nossa plataforma está comprometida em trazer conteúdo jornalístico aprofundado e relevante, convidando você a se manter informado e engajado com as causas que importam.

Fonte: https://g1.globo.com

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