À medida que a corrida eleitoral de outubro se aproxima, governadores em todo o Brasil intensificam suas estratégias digitais, transformando as redes sociais em um campo de batalha crucial para a atenção e o voto do eleitorado. Não se trata apenas de divulgar feitos ou promessas; a disputa envolve uma complexa arquitetura de comunicação que vai desde a postura em relação à segurança pública até o uso estratégico de memes e a curadoria da própria imagem. Esta abordagem multifacetada reflete a crescente importância do ambiente digital como canal primário para moldar percepções e engajar cidadãos.
Dez governadores, que se preparam para tentar a reeleição, estão investindo pesado na esfera digital. A meta é clara: apresentar as entregas de suas gestões, debater temas sensíveis como a segurança pública e criar uma conexão mais próxima e, por vezes, descontraída com os eleitores através de conteúdos virais e tendências da internet. Essa dinâmica exige uma compreensão profunda do comportamento online e uma capacidade de adaptação constante às rápidas mudanças do cenário digital.
A ascensão das redes sociais como palco eleitoral
A era digital redefiniu as regras do jogo político, e as redes sociais, como o Instagram, emergiram como plataformas indispensáveis para campanhas eleitorais. Elas oferecem uma via direta e muitas vezes de baixo custo para que políticos se comuniquem com o público, contornando a mediação tradicional da imprensa e permitindo um controle maior sobre a narrativa. Para os governadores que buscam a reeleição, essa autonomia é vital para consolidar sua base de apoio e conquistar novos adeptos, exibindo suas realizações diretamente ao eleitorado e respondendo às demandas da sociedade em tempo real.
A capacidade de dialogar com diferentes gerações, especialmente com os jovens eleitores, que são nativos digitais e passam grande parte do tempo online, é um diferencial competitivo. Além disso, a natureza visual e interativa de plataformas como o Instagram permite que as campanhas explorem formatos criativos, como vídeos curtos e transmissões ao vivo, para humanizar a figura do político e apresentar suas propostas de forma mais envolvente e memorável. No entanto, essa exposição também traz desafios, como a gestão de crises de imagem e a proliferação de desinformação, exigindo uma estratégia de comunicação robusta e proativa.
A metodologia da análise especializada
Para decifrar as complexas táticas empregadas pelos pré-candidatos, o g1 consultou um painel de seis renomados especialistas – quatro em marketing político e duas estrategistas de imagem pública. A análise focou nos perfis do Instagram de dez governadores de diversos estados brasileiros: Fábio Mitidieri (PSD-SE), Clécio Luís (União Brasil-AP), Rafael Fonteles (PT-PI), Elmano de Freitas (PT-CE), Jorginho Mello (PL-SC), Lucas Ribeiro (PP-PB), Eduardo Riedel (PP-MS), Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), Raquel Lyra (PSD-PE) e Jerônimo Rodrigues (PT-BA). A escolha desses nomes busca refletir uma amostra representativa das diferentes realidades políticas e regionais do país.
Conforme André Régis, Ph.D. em Ciência Política pela Nova Escola de Pesquisa Social de Nova York e professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), embora a amostra não permita um diagnóstico exaustivo, ela é mais do que suficiente para identificar tendências e padrões relevantes na comunicação digital desses líderes. Os especialistas categorizaram os perfis em 'ideológico', 'institucional' ou 'popular', avaliaram a imagem de gestor como 'eficiente', 'humano' ou 'amigo', classificaram o discurso de segurança pública em 'linha dura', 'técnico' ou 'moderado', e analisaram a imagem transmitida pelo visual do político. Essas categorias, desenvolvidas pelos próprios profissionais, oferecem um framework robusto para compreender as nuances das estratégias de cada candidato.
Autenticidade vs. estratégia: o desafio da performance digital
No ambiente digital, a performance de um político, ou seja, a maneira como ele se apresenta e interage, é vital para estabelecer identificação com o eleitor. Segundo Kleber Carrilho, professor do MBA em Marketing Político na Universidade de São Paulo (USP) e pesquisador em Comunicação Política, uma persona construída puramente por estratégia, sem ressonância com a personalidade real do político, pode soar artificial e prejudicar a conexão com o público. A autenticidade, nesse contexto, torna-se um capital político inestimável, capaz de gerar confiança e lealdade em meio à profusão de informações.
Os casos de Raquel Lyra e Jerônimo Rodrigues
A análise de Carrilho ilustra essa dinâmica ao comparar os perfis de Raquel Lyra (PSD-PE), com impressionantes 1,7 milhão de seguidores, e Jerônimo Rodrigues (PT-BA), que conta com 869 mil. Ambos ostentam um perfil categorizado como 'popular' nas redes sociais, buscando uma linguagem próxima e acessível. Lyra projeta a imagem de uma governadora 'humana', enquanto Rodrigues se posiciona como um governador 'amigo'. Embora semelhantes na busca pela popularidade, a diferença reside na naturalidade de suas performances.
O especialista aponta que Raquel Lyra parece mais à vontade em seu papel digital, sugerindo que sua persona nas redes é uma extensão autêntica de sua personalidade política. Já a performance de Jerônimo Rodrigues, segundo Carrilho, parece mais adaptada a uma estratégia pré-definida, o que pode gerar uma percepção de distanciamento entre o político e o personagem. Essa nuance é crucial, especialmente quando a concorrência é acirrada. As redes sociais da governadora de Pernambuco passaram por uma reestruturação recente, com a meta ambiciosa de alcançar 2 milhões de seguidores. Essa iniciativa é particularmente relevante considerando seu principal adversário, o prefeito de Recife, João Campos (PSB), que já possui 3 milhões de seguidores e é amplamente conhecido como 'prefeito tiktoker', exemplificando a vanguarda na performance digital.
Segurança pública: o discurso 'linha dura' em evidência
Um dos temas mais sensíveis e com maior potencial de engajamento é a segurança pública. Independentemente da filiação partidária, o discurso 'linha dura' tem sido a tática predominante entre os governadores pré-candidatos à reeleição. Quatro dos dez perfis analisados — Elmano de Freitas (PT), Jorginho Mello (PL), Tarcísio de Freitas (Republicanos) e Clécio Luís (União) — adotam essa abordagem, que ressoa com uma parcela significativa do eleitorado preocupada com a criminalidade. Essa prioridade reflete dados recentes do Datafolha, divulgados em março, que indicam a segurança como a principal preocupação para 19% dos entrevistados, em empate técnico com a saúde (21%), superando economia (11%), educação (9%) e corrupção (9%).
Diferentes abordagens e o exemplo de Elmano de Freitas
O discurso 'linha dura' geralmente se manifesta através da ênfase no aumento do efetivo policial, no aparelhamento das forças de segurança, na repressão ao crime organizado e na promessa de tolerância zero. Essa retórica busca transmitir uma imagem de firmeza e determinação no combate à criminalidade, apelando diretamente ao desejo de ordem e proteção da população. Em contraste, outras abordagens incluem o discurso 'técnico', focado em políticas baseadas em dados e inteligência policial, e o discurso 'moderado', que busca um equilíbrio entre repressão e prevenção, com investimentos em áreas sociais e educação para combater as raízes da violência.
A pesquisadora Monalisa Soares, coordenadora do Laboratório de Estudos sobre Política, Eleições e Mídia na Universidade Federal do Ceará, destaca o caso do governador cearense Elmano de Freitas. Em seu perfil, a segurança pública é o tema mais proeminente, com uma clara ênfase no fortalecimento das instituições policiais e na modernização dos recursos disponíveis. Essa estratégia é cuidadosamente comunicada para demonstrar resultados concretos e reforçar a percepção de um governo atuante na defesa da ordem pública, um pilar fundamental para qualquer campanha de reeleição em um contexto de crescente preocupação com a violência.
Além das políticas: a influência do visual e dos memes
No universo digital, a mensagem vai muito além das palavras e das propostas. A imagem visual do político desempenha um papel fundamental na construção de sua percepção pública. A escolha do vestuário, o corte de cabelo, a linguagem corporal e até mesmo o estilo das fotos e vídeos postados são elementos cuidadosamente planejados para transmitir uma imagem específica: seja a de um gestor moderno e dinâmico, um líder sério e experiente, ou uma figura acessível e próxima do povo. A harmonização entre a postura visual e o discurso político é essencial para garantir a coerência e a credibilidade do candidato, evitando dissonâncias que possam ser percebidas como inautenticidade.
Os memes, por sua vez, representam a faceta mais descontraída e arriscada da comunicação digital. Embora possam gerar alto engajamento e aproximar o político de um público mais jovem e da cultura da internet, seu uso exige cautela. Memes bem-sucedidos podem humanizar o candidato, mostrando sua capacidade de se conectar com o cotidiano e o humor popular. No entanto, um meme mal-executado ou fora de contexto pode trivializar questões importantes, gerar mal-entendidos ou até mesmo ser interpretado como falta de seriedade, resultando em um tiro no próprio pé. A arte de usar memes na política reside em encontrar o equilíbrio perfeito entre leveza e propósito, garantindo que a mensagem principal não seja perdida na brincadeira.
O impacto das estratégias digitais nas eleições de 2024
As eleições de 2024 prometem ser um campo de prova para a evolução das estratégias digitais na política brasileira. A complexidade de gerenciar a autenticidade, o tom do discurso sobre temas sensíveis como segurança e a leveza de conteúdos como memes, tudo isso enquanto se disputa a atenção em um ambiente saturado de informações, é um desafio para qualquer pré-candidato. A capacidade de inovar, adaptar-se às novas tendências e, acima de tudo, manter uma comunicação transparente e coerente, será decisiva para aqueles que buscam a reeleição. A ausência de manifestação das assessorias dos 10 pré-candidatos sobre as análises dos especialistas, conforme reportado, pode indicar uma cautela estratégica ou uma subestimação da profundidade dessas avaliações. No entanto, o palco digital já está montado, e a performance de cada governador será avaliada diariamente pelos eleitores.
Este cenário ressalta que as redes sociais não são meros canais auxiliares, mas sim ecossistemas centrais onde se constroem reputações, se debatem propostas e se engajam cidadãos. Para o eleitor, a capacidade de discernir entre a imagem cuidadosamente construída e a essência do político nunca foi tão crucial. Compreender essas dinâmicas é fundamental para uma participação cidadã informada e ativa, garantindo que a democracia digital sirva ao seu propósito de fortalecer o debate público e a representatividade.
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Fonte: https://g1.globo.com