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O universo do empreendedorismo familiar, embora repleto de potencial e paixão compartilhada, apresenta uma teia complexa de desafios quando a linha entre os laços maternos e a hierarquia profissional se dissolve. Em Santa Catarina, diversas mães empreendedoras encaram diariamente a delicada tarefa de comandar seus negócios, enquanto seus próprios filhos atuam como colaboradores. Esta dinâmica singular exige uma navegação cuidadosa entre a autoridade inerente à liderança e o afeto profundo que define a relação familiar, demandando estratégias claras para evitar que a esfera pessoal se sobreponha às exigências do ambiente corporativo, garantindo a produtividade e a saúde das relações.

Autoridade e afeto: o dilema das mães no comando empresarial

A história de Josiane Machado, sócia proprietária de um bem-sucedido restaurante de frutos do mar com três unidades estrategicamente localizadas no litoral catarinense – abrangendo as cidades de Governador Celso Ramos, Florianópolis e Itapema –, personifica esse intrincado equilíbrio. Josiane, uma chefe de cozinha experiente, gerencia seus estabelecimentos e, ao mesmo tempo, supervisiona seu filho, Guilherme Machado Sagas. A realidade de ter um filho como funcionário ou sócio frequentemente borra as fronteiras, fazendo com que Josiane sinta as múltiplas facetas de sua relação com Guilherme em diferentes momentos do dia. "Tem hora que ele é meu sócio, tem hora que ele é meu funcionário, tem hora que ele é meu filho", revela Josiane, ilustrando a constante alternância de papéis e a complexidade emocional envolvida.

Essa ambiguidade é um desafio comum em empresas familiares, onde a intimidade e a história pessoal se entrelaçam com as decisões de negócios. A transição de mãe para chefe e de filho para funcionário exige uma maturidade e uma compreensão mútua que vão além das relações profissionais convencionais. O amor incondicional da maternidade e a necessidade de manter a disciplina e a performance no trabalho criam uma tensão que, se não for bem gerenciada, pode gerar atritos, conflitos de interesse e até comprometer o sucesso do empreendimento. O limite entre o conselho materno e a diretriz profissional torna-se um campo minado que demanda clareza e respeito mútuo.

A importância dos limites claros na gestão familiar

A psicóloga Rosa Maria Maia Lavio de Oliveira ressalta a fundamentalidade de estabelecer limites nítidos e bem comunicados para que a dinâmica entre mãe-chefe e filho-funcionário prospere. Segundo a especialista, o reconhecimento e o respeito à mãe como empreendedora e líder dentro do ambiente de trabalho são pilares para a funcionalidade da empresa. "Se a mãe fala: 'você vai entrar tal hora e sair tal hora', você tem o horário 'x' de almoço e você tem tal horário para voltar. Assim, a coisa funciona muito bem e a empresa cresce", explica a psicóloga, destacando a necessidade imperativa de formalizar expectativas, responsabilidades e processos de trabalho, tal qual seria feito com qualquer outro colaborador.

A ausência dessas fronteiras claras pode acarretar sérias consequências para a empresa e para as relações pessoais. Quando os filhos interpretam o vínculo familiar como um passe livre para interferir em decisões, desrespeitar horários ou assumir uma posição de privilégio perante a equipe, os desgastes são inevitáveis. Isso pode gerar ressentimento e uma sensação de injustiça entre os demais funcionários, abalar a moral da equipe, criar conflitos internos e, em última instância, impactar negativamente a produtividade, o clima organizacional e a retenção de talentos. Além disso, a mistura indevida de papéis pode transbordar para a vida pessoal, deteriorando a relação entre pais e filhos fora do expediente de trabalho, transformando o lar em uma extensão do escritório. A profissionalização da gestão, mesmo em contextos familiares, é um caminho essencial para a sustentabilidade e o crescimento a longo prazo.

O caminho da profissionalização e a adaptação de Guilherme

O restaurante de Josiane Machado acumula mais de três décadas de história, uma trajetória que Guilherme, de 25 anos, acompanhou desde o berço, imerso nos aromas e no dinamismo da culinária de frutos do mar. Embora a vivência no negócio fosse familiar, foi durante a pandemia que ele tomou a decisão de abandonar o curso de Direito para se dedicar integralmente ao empreendimento da família. Sua chegada foi acompanhada de ideias inovadoras e um desejo natural de modernizar a operação. No entanto, essa energia de transformação, por vezes, colidiu com a essência e os métodos já consolidados ao longo de décadas, gerando os inevitáveis conflitos iniciais com a mãe.

No decorrer desse processo, a fase de atritos serviu como catalisador para um amadurecimento mútuo. Josiane, refletindo sobre a dinâmica, compara a situação a uma casa de família comum, onde discussões são parte do processo de crescimento e adaptação. "Mesmo a gente 'se matando', a gente se ama ao mesmo tempo, porque a gente tem o mesmo propósito. Tem hora que ele é o mais maduro, ele é o mais consciente da história. Tem hora que sou eu. E aí vai se moldando", conta. Guilherme, por sua vez, responsável pelo marketing do restaurante, compreendeu que sua contribuição mais valiosa não residia em revolucionar a alma do negócio a todo custo, mas em fortalecer a marca e otimizar processos existentes de forma complementar. Essa compreensão mútua e a redefinição de papéis foram cruciais para a melhoria da relação profissional e pessoal.

Aprender a distinguir os chapéus de mãe, sócia e funcionário é um processo contínuo de autoconhecimento e negociação. Guilherme enfatiza a importância de ver a mãe em seus diferentes papéis: "Eu vejo ela como figura de mãe num momento e como sócia em outro. Mas sempre tendo o respeito de mãe. É um desafio, é difícil a gente ter ideias às vezes tão distintas, brigando pela mesma coisa. Mas, no final das contas, no final do dia, a gente se liga ou a gente se vê, se abraça, se beija e pede desculpa". Essa capacidade de separar as discussões profissionais do afeto familiar, de perdoar e seguir em frente, é a chave para a sustentabilidade da relação e do negócio.

O boom do empreendedorismo materno e a busca por flexibilidade

O cenário de Josiane e Guilherme não é isolado; ele reflete uma tendência nacional. Um estudo recente do Observatório de Negócios, em parceria com o Sebrae Delas, revelou que em 2022, impressionantes 50,5% das empreendedoras brasileiras eram mães. Esse dado sublinha uma tendência crescente e multifacetada no panorama empresarial brasileiro. A busca por maior flexibilidade de tempo, a aspiração por autonomia profissional e a dificuldade persistente de conciliar uma carreira tradicional com as demandas da maternidade emergem como os principais catalisadores para essa escolha empreendedora. Muitas mulheres encontram no empreendedorismo a possibilidade de moldar seus próprios horários e ambientes de trabalho, adaptando-os às necessidades familiares de uma forma que o mercado de trabalho convencional muitas vezes não permite, onde jornadas fixas e rígidas dominam.

Contudo, essa 'flexibilidade' percebida pode, na realidade, significar uma sobrecarga ainda maior, já que as fronteiras entre vida pessoal e profissional se tornam ainda mais tênues para a empreendedora-mãe. A responsabilidade de gerir um negócio somada à gestão do lar e da família, sem horários fixos para 'desligar', pode levar ao esgotamento. É um equilíbrio precário que exige disciplina e o estabelecimento de limites ainda mais rigorosos, não só com os filhos, mas consigo mesma, para evitar o 'burnout'.

Harmonia e colaboração na floricultura de Scheila Hames

Outro exemplo inspirador vem de Scheila Hames, proprietária de uma floricultura que foi fundada antes mesmo do nascimento de seus filhos, Kaique, de 21 anos, e Henrique, de 19. Diferentemente do caso anterior, a floricultura não apenas permite que Scheila desfrute de flexibilidade, mas também se tornou um ponto de união familiar e um legado. Hoje, seus filhos trabalham ativamente no negócio, dividindo-se entre tarefas como entregas, atendimento ao cliente e contato com fornecedores. Para eles, o convívio praticamente integral com a mãe não representa um fardo, mas sim um prazer, evidenciando que a dinâmica familiar no trabalho pode ser uma fonte de grande satisfação.

Henrique expressa essa sintonia de forma clara: "A gente passa muito tempo junto. Eu gosto passar tempo com a família, então basicamente a gente passa 24 horas por dia junto". Essa proximidade, embora possa gerar divergências pontuais – "Às vezes é uma opinião diferente um do outro sobre alguma venda, algo assim, e acaba dando conflito. Mas a gente consegue resolver tranquilo também", afirma Henrique –, é gerida com naturalidade, maturidade e eficácia. A intimidade inerente à relação familiar, neste contexto, revela-se um diferencial positivo, facilitando a troca de conhecimentos, a tomada de decisões rápidas e a construção de um ambiente de trabalho colaborativo, onde a confiança mútua é um alicerce sólido.

Scheila também precisou aprimorar sua capacidade de discernir entre os momentos em que deve atuar como mãe, oferecendo apoio e compreensão, e aqueles em que a postura de chefe é indispensável, exigindo resultados e disciplina. Contudo, ela reconhece que a profunda conexão com os filhos é um trunfo, permitindo uma comunicação mais fluida e um entendimento mais rápido das necessidades do negócio. A capacidade de "fluir" entre esses papéis, mantendo o respeito, a clareza sobre os objetivos empresariais e uma escuta ativa, é o que permite que o negócio floresça e a família se fortaleça, transformando desafios em oportunidades de crescimento.

Navegando as complexidades: estratégias para o sucesso de negócios familiares

Os casos de Josiane e Scheila sublinham que, embora o empreendedorismo materno com filhos na equipe seja um cenário desafiador, ele é plenamente viável e, em muitos aspectos, recompensador. O sucesso reside na implementação de estratégias claras e na constante evolução da comunicação e da inteligência emocional de todos os envolvidos. É fundamental estabelecer acordos formais, como descrições de cargos detalhadas, metas de desempenho claras, processos de avaliação transparentes e canais de comunicação bem definidos. Esses mecanismos ajudam a delimitar as expectativas profissionais, dissociando-as, na medida do possível, das relações afetivas, profissionalizando a interação.

Além disso, a profissionalização não se limita à formalização de papéis; ela engloba também a capacidade de desenvolver um ambiente de trabalho justo e equitativo para todos os colaboradores, independentemente do parentesco. Isso significa aplicar as mesmas regras, benefícios e expectativas a todos, evitando percepções de favoritismo ou privilégio que podem desmotivar a equipe externa. A sucessão familiar, outro ponto crucial em negócios desse tipo, deve ser planejada com antecedência e transparência, envolvendo discussões abertas e, se necessário, o auxílio de consultores externos especializados em empresas familiares, para garantir uma transição suave, justa e profissional, minimizando conflitos futuros.

Em última análise, o empreendedorismo familiar, especialmente quando mães e filhos compartilham a jornada profissional, é uma prova da resiliência, da capacidade de adaptação humana e do poder dos laços afetivos bem gerenciados. Ele oferece a oportunidade única de construir legados duradouros, baseados não apenas em lucros, mas também em valores compartilhados, confiança e um profundo senso de propósito. A chave é cultivar um ambiente onde o respeito mútuo, a comunicação transparente e a definição clara de papéis permitam que tanto o negócio quanto os laços familiares floresçam em harmonia, enriquecendo a vida de todos os envolvidos.

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Fonte: https://g1.globo.com

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